A qualidade de uma decisão de investimento não vem só da robustez da técnica — vem de quem lê o número. Eu vi isso na operação antes de ler na teoria.
Todo curso de finanças ensina Valor Presente Líquido, Taxa Interna de Retorno, payback descontado. São as ferramentas certas. Mas em mais de duas décadas decidindo investimento em operação real, aprendi que a conta quase nunca é o que trava a decisão. Quem trava é quem lê a conta.
Quando aprofundei o tema num artigo que escrevi no mestrado em Administração, o dado que mais me marcou foi este: métodos consagrados como VPL e TIR são aplicados de forma inconsistente na prática das médias empresas, com frequência substituídos por critérios subjetivos e heurísticas simplificadas. A empresa tem o instrumento, mas decide pelo faro. E quando roda o número, muitas vezes ignora o que ele diz.
Excesso de confiança, aversão à perda, ancoragem no primeiro número que apareceu. O gestor superestima o próprio faro e subestima o próprio viés. Por isso um projeto com retorno negativo sobrevive porque “já investimos muito nele”, e um bom projeto morre porque chegou num mês de caixa apertado. A técnica estava lá. O comportamento decidiu por ela.
A robustez da ferramenta não salva uma decisão tomada por quem não sabe — ou não quer — ler o que ela mostra.
Na análise de viabilidade de uma fusão que conduzi em Angola, a planilha entregava o intervalo de valor. Mas a decisão exigia ler o que ela não mostrava: governança, risco de execução, a gente que ficaria de pé depois. O papel do CFO, e do conselho, é blindar a decisão do viés — não apenas rodar o modelo.
Fica a pergunta para quem decide: quantas decisões na sua empresa a planilha aprovou e o resultado desmentiu — não porque a conta estava errada, mas porque quem decidiu estava com pressa, com medo ou com excesso de confiança?